quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Transposição do Rio São Francisco



Esse texto foi escrito por João Suassuna, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, no ano de 1997 - Dez anos se passaram e as questões continuam as mesmas. Leiam e pensem sobre.

Transposição das águas do Rio São Francisco para o abastecimento do Nordeste semi-árido: solução ou problema?

Estamos às voltas com um novo ciclo seco no Nordeste. O El Niño está colocando suas "garras" de fora. As águas do Oceano Pacífico estão esquentando devido à ação dos ventos alísios que sopram de leste para oeste elevando o nível das águas quentes que normalmente se encontram na parte ocidental daquele oceano. Os ventos começam a mudar de direção (agora no sentido oeste para leste), levando a massa de água quente para a costa peruana, o que ocasiona fortes tempestades com a intensa evaporação ali existente. No litoral sul-americano, o mecanismo impede a subida das águas frias à superfície, enquanto os ventos desviam as chuvas e bloqueiam as frentes frias vindas da Antártica, causando inundações no Sul e seca no Nordeste brasileiros.

(...) Diante desse fato, recrudesce, no meio político, a idéia da transposição das águas do Rio São Francisco, como a única solução para resolver o problema do abastecimento das cidades e mitigar a sede dos nordestinos. O quadro merece uma pausa para meditação.

Temos conosco um documento elaborado pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Estado de Pernambuco intitulado "Relatório sobre a Transposição do Rio São Francisco e as Atuais Necessidades de Recursos Hídricos do Nordeste", no qual fica clara a visão do governo com relação às vantagens de transpor as águas, tendo em vista o reforço dos recursos hídricos para os rios Brígida e Pajeú e os benefícios sócio-econômicos advindos.

No documento é feita uma descrição, em linhas gerais, das características do projeto de transposição transcritas, a seguir, na íntegra:

a) "a captação de água deve ser realizada perto de Cabrobó, na divisa entre Bahia e Pernambuco, numa altitude 50 m inferior à da Barragem de Sobradinho;

b) pretende-se desviar cerca de 280 m³/s, quando o projeto estiver todo implantado, sendo que na primeira etapa, a previsão é retirar 70 m³/s do São Francisco, que neste ponto tem vazão firme (grifo nosso) de 2065 m³/s, o que representa menos, provavelmente, que a margem de erro das medições hidrológicas;

c) na captação a água será bombeada para superar cerca de 30 m de elevação geométrica e segue em canais e reservatórios até Terra Nova, onde é elevada novamente em 50 m, prosseguindo em aquedutos e leitos naturais (grifo nosso) até Salgueiro, onde uma 3ª estação elevatória seria implantada para recalcar a água a 80 m de elevação. Desta forma, a água captada na cota de 315 metros, após ser recalcada 160 m, cruzaria o divisor na altitude de 475 metros, prosseguindo daí em diante para o vale do Jaguaribe, por gravidade. A passagem no divisor é prevista em túnel de 1500 m, nos limites estaduais de Pernambuco e do Ceará;

d) a idéia é que, dos 2000 km percorridos pela água na adução até o mar, cerca de 200 km serão contemplados com obras. As demais distâncias serão percorridas em leito natural de rios e reservatórios;

e) depois de transposto o divisor, a água seguiria pelos rios dos Porcos, Salgado e Jaguaribe, por onde atingiria o litoral;

f) na primeira etapa do projeto, as vazões decorrentes da transposição seriam divididas da seguinte forma: 25 m³/s para o Ceará, 15 m³/s para o Rio Grande do Norte, 15 m³/s para a Paraíba e 15 m³/s para Pernambuco."

O curioso é que, da forma como a questão é colocada, num contexto um tanto inconseqüente, pois nos dá a nítida impressão da magnitude dos custos do projeto, tanto os financeiros como os imputados ao meio ambiente, parece-nos que as pessoas perderam o censo crítico de analisar as coisas. É como se houvesse a proposta para a realização de um projeto de esfriamento das águas do Pacífico para minimizar os efeitos do El Niño, "laçando-se" um iceberg da Antártica e rebocando-o até o local do esquentamento, para amenizar a temperatura daquele pedaço do Oceano Pacífico que tem tanta importância para a vida dos nordestinos. No nosso modo de entender a comparação tem a mesma magnitude.

A questão tem que ser tratada em bases mais científicas ao invés de decisões simplórias e descabidas, do tipo "vamos fazer, que depois os problemas surgidos serão resolvidos". Só que, dessa forma, os problemas podem não ter o remédio esperado e, mesmo que surjam algumas alternativas de solução, essas poderão ser inviáveis dado o custo elevado.

No nosso modo de entender, alguns pontos têm que ser levados em consideração quando o assunto é transposição das águas: o primeiro, diz respeito à intensa evapotranspiração que existe no Nordeste semi-árido, que chega a alcançar patamares médios da ordem de 2000 mm anuais.

Isso é um dado espantoso, se imaginarmos uma lâmina de 2 metros de água a céu aberto, em leitos naturais conforme o explicitado no projeto, perdendo-se anualmente para a atmosfera sem o mínimo uso, numa região de déficit hídrico, onde a média pluviométrica gira em torno dos 600 mm anuais.

O segundo, diz respeito ao consumo de energia para recalcar o volume de água pretendido. De acordo com os dados do projeto, a energia necessária para esse fim é equivalente àquela gerada em Sobradinho (1050 MW), ou seja, precisa-se ter uma Sobradinho inteira, funcionando 24 hs por dia, para manter o sistema operando satisfatoriamente, numa região em que estão previstos problemas de geração de energia elétrica já no ano 2000.

O terceiro, e talvez o mais importante, diz respeito à garantia de vazão do rio que assegure a geração de energia elétrica e a irrigação em suas áreas potenciais. O São Francisco é um rio que, no Nordeste semi-árido, corre inteiramente sobre o embasamento cristalino e, em decorrência disso, todos os seus afluentes têm regime temporário. Este aspecto traz, como conseqüência, uma diminuição gradativa de sua vazão ao longo do ano, dada a diminuição e até a interrupção das vazões dos afluentes que fazem parte de sua bacia, agravada ainda, pelo uso consuntivo das águas na irrigação (águas utilizadas que não têm retorno ao rio).

(...)Imaginem os senhores leitores se, uma vez instalado esse quadro de penúria hídrica, tivéssemos ainda que subtrair mais água do rio para atender ao abastecimento do Nordeste. Simplesmente não iríamos ter água suficiente para tudo isso (geração, irrigação e abastecimento).

(...)Diante do exposto, esperamos que as autoridades reflitam melhor sobre a transposição do Rio São Francisco, agregando a ela a questão do gerenciamento regional integrado dos recursos ambientais, aí incluindo o uso coerente de suas águas, como fator fundamental do desenvolvimento da Região Nordeste. Para que isso se realize, é importante que sejam ouvidos todos os segmentos da sociedade, que precisam ser estimulados para apoiar essas ações, e conhecer quais são suas prioridades e como estas se inserem num plano de conjunto que se desdobra ao longo do tempo.

Projeto Manuelzão


O Projeto Manuelzão é um projeto de extensão da Universidade Federal de Minas Gerais que tem por objetivo promover a revitalização da bacia do Rio das Velhas. Suas atividades tiveram início em 1997 na Faculdade de Medicina, pela iniciativa de um grupo de professores que perceberam que saúde não é apenas uma questão médica: ela está diretamente relacionada às condições sociais e ao meio ambiente em que as pessoas vivem.

Dessa forma, o Projeto tem como eixo de atuação a promoção da saúde, do ambiente e da cidadania. A volta do peixe ao rio é o símbolo de sua luta. Para traduzir sua causa, o Projeto buscou inspiração em uma figura simples, grande conhecedora do sertão mineiro: o vaqueiro Manuel Nardi, que foi imortalizado na obra do escritor Guimarães Rosa como Manuelzão.

Com atuação nos 51 municípios da bacia, o Projeto incentiva a participação e o comprometimento das pessoas, constrói relações com o poder público e o empresariado, atua na educação ambiental e na pesquisa. Tudo isso é feito para que em cada canto da bacia as pessoas atuem pelas questões locais e se percebam parte de um sistema em que cada ação, positiva ou negativa, reflete no todo. É o que Projeto chama de pertencimento de bacia.
Conheça mais sobre o projeto: Projeto Manuelzão

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

A Imprensa e a Sustentabilidade

Esse texto foi escrito por Wilson da Costa Bueno, jornalista, professor da UMESP e da USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.
Publicado originalmente no site Mercado Ético


A IMPRENSA E O CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE

Como muitos outros conceitos (responsabilidade social, cidadania, inclusão social etc) que transitam livre e intensamente pelas páginas e telas da mídia brasileira, o conceito de sustentabilidade anda exibindo muitas faces ou cores, comportando-se como um verdadeiro camaleão. Na verdade, ele tem sido remodelado a cada instante, refém das empresas e autoridades que o manipulam , de tal modo que fica difícil reconhecer a sua legitima acepção.

A imprensa, tradicionalmente, não é muito cuidadosa com os conceitos, talvez porque, sobretudo nos últimos anos, ela tem se preocupado mais em reproduzir falas e discursos do que em entendê-los ou validá-los. Ao não adotar uma perspectiva crítica, adepta generosa que é de todos os modismos, a mídia joga o conceito de sustentabilidade para lá e para cá, como um menino sapeca que chuta sua bola preferida para todos os lados.

Mas essa postura não é nada saudável. Conceitos difusos implicam, necessariamente, avaliações nada precisas, contribuem para desqualificar a cobertura, confundem a audiência e, por isso, não agregam valor a coisa alguma.

Se o conceito de sustentabilidade remete (acreditamos nisso!) a valores importantes na sociedade contemporânea, então está na hora de tratá-lo com mais respeito. A imprensa não tem o direito de maquiá-lo grosseiramente, porque ele só pode ser percebido em sua plenitude quando de cara limpa.

Sustentabilidade não significa crescimento permanente dos negócios, como muitos empresários, respaldados pela mídia, tentam fazer crer. Nada tem a ver com o aumento absoluto de indicadores econômicos, como PIB, com o recorde de venda de automóveis e celulares, ou com exportações expressivas de commodities (minérios ou soja). Esta leitura tosca e viciada do conceito tem estado a serviço de grandes interesses, exatamente aqueles que continuam desfrutando de privilégios enquanto a maioria dos brasileiros se esfola para manter uma vida digna.

Evidentemente, a sustentabilidade está associada à problemática ambiental, mas não se reduz a ela, mesmo porque o próprio conceito de meio ambiente costuma criar algumas armadilhas para os que dele se utilizam sem maiores cuidados. A sustentabilidade não deve ser vista como algo externo à cultura, à sociedade, ao próprio homem porque tem a ver com o comportamento e a ação de cada um de nós. Ela tem a ver com a biodiversidade, mas também com a sociodiversidade. Ela não é gerada pela boa vontade e disposição de alguns poucos eleitos, mas se constrói pela mobilização da coletividade.

Simplesmente porque – é importante repetir – estamos todos no mesmo barco, submetidos à mesma e inexorável condição: ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém. Todos já percebemos (você ainda dúvida dos relatórios dramáticos sobre as mudanças climáticas?) que as tempestades andam mais intensas, o calor mais insuportável, as guerras mais freqüentes e que há mais gente sem água para beber e morrendo de fome.

O conceito adequado de sustentabilidade remete a uma dimensão mais ampla e que extrapola esta visão egoísta dos que faturam com a ciranda financeira, com a especulação nefasta, com a dança mesquinha das taxas de juros e do câmbio. O conceito de sustentabilidade tem a ver com compromisso, não com investimento. Sustentabilidade é algo que se implanta na alma e não apenas algo que se coloca no bolso.

A sustentabilidade legítima, que a mídia insiste em não enxergar, tem a ver com a redução da pobreza, com os direitos das crianças e adolescentes, com o acesso à educação e ao trabalho, com a solidariedade, com o respeito à diversidade e à liberdade de expressão. A sustentabilidade está vinculada à valorização dos saberes e conhecimento tradicionais e inclui tanto os executivos das corporações quanto os povos da floresta. Ela decorre das políticas públicas, coordenadas pelos governantes, mas também de decisões individuais.

A sustentabilidade tem uma dimensão essencialmente humana e precisa ser entendida desta forma sob pena de mascarar a realidade. Não é um conceito que pode ou deva ser apropriado por alguns ou favorecer alguns em detrimento da maioria.

A imprensa precisa ter em conta de que cabe a ela um papel fundamental na sociedade e que, ao manipular os conceitos inadvertidamente, contribui para aumentar as desigualdades e para aprofundar as injustiças.

A mídia não pode continuar esvaziando um conceito que nos é cada vez mais caro. Ela precisa, de uma vez por todas, comprometer-se com esta visão abrangente, com a sustentabilidade que tem a ver com o interesse público e não apenas com a permanência de seu próprio negócio.

O conceito de sustentabilidade, corretamente utilizado, indica caminhos, resgata vivências e experiências e convida a todos para uma ação coletiva, solidária e corajosa. A imprensa, assim como aqueles que a pautam em seu benefício, precisam perceber que a sustentabilidade só será obtida se estivermos todos juntos. Como o conceito de ecossistema nela implícito, a sustentabilidade plena significa mais do que a soma das partes. Ela deriva de relações saudáveis, éticas, democráticas, equânimes e socialmente justas. Será que é tão difícil para a mídia compreender e divulgar esta verdade?

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Nota de Abertura

Aos meus futuros leitores,

Tomei a iniciativa de elaborar esse blog com a finalidade de ter um espaço para discutir e divulgar as ações que estão sendo tomadas por grupos e ONGs em prol da sustentabilidade, que é o grande foco tanto ambiental, político e econômico na atualidade.

Antes de criar algum tipo de polêmica, o blog "Sustentabilidade em Foco", não tem nenhum vinculo com empresas e não visa divulgar ações de marketing empresarial. É um blog sem fins lucrativos, portanto os links, bunners do Youtube e de notícias do Google são apenas de cunho informativo, não mantendo nenhuma relação institucional.

Aqui também não serão veiculadas ações gorvenamentais, ou partidarias. Porém, por ser um blog de opinião, poderemos tratar de temas relacionados às ações empresariais, ou mesmo governamentais, e abrir discussões para o caminho que as ações de cunho sustentáveis estão tomando.

O país em que vivemos é um dos maiores em reserva ambiental e e hidrográfica. Devemos estar ciente do valor desses bens para o futuro da população mundial, e ter consciência de que nem toda ação bonitinha não visa um lucro. Nem toda ONG só quer ajudar. Tentarei tomar esse cuidado e conto com a ajuda de vocês, com suas críticas e opiniões.

Portanto, tudo o que é feito nesse âmbito, deve ser analisado profundamente. Estamos passando pelo momento "boom" desses movimentos sustentáveis, onde todas as empresas estão criando seus projetos e a Bovespa já possui o seu Índice de Sustentabilidade Empresarial. O mundo sustentável já é uma realidade econômica em o nosso país, mas isso é uma coisa boa, ou ruim?
Não seria uma contradição histórica?

Estarei postando com a periodicidade semanal, às vezes mais de uma vez por semana. No fundo, eu criei esse blog para justamente estar sempre buscando sobre esse assunto, que não está diretamente ligado com a minha formação, porém está ligado diretamente com a vida de todos nós.

sábado, 3 de novembro de 2007

ISE = Índice de Sustentabilidade Empresarial

Antes de aplicar suas ações, faça uma consulta e veja se a empresa age de forma sustentável.

O ISE

Já há alguns anos iniciou-se uma tendência mundial dos investidores procurarem empresas socialmente responsáveis, sustentáveis e rentáveis para aplicar seus recursos.Tais aplicações, denominadas “investimentos socialmente responsáveis” (“SRI”), consideram que empresas sustentáveis geram valor para o acionista no longo prazo, pois estão mais preparadas para enfrentar riscos econômicos, sociais e ambientais. Essa demanda veio se fortalecendo ao longo do tempo e hoje é amplamente atendida por vários instrumentos financeiros no mercado internacional.No Brasil, essa tendência já teve início e há expectativa de que ela cresça e se consolide rapidamente.

Atentas a isso, a BOVESPA, em conjunto com várias instituições – ABRAPP, ANBID, APIMEC, IBGC, IFC, Instituto ETHOS e Ministério do Meio Ambiente – decidiram unir esforços para criar um índice de ações que seja um referencial para os investimentos socialmente responsáveis, o ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial.

Nesse sentido, essas organizações formaram um Conselho Deliberativo presidido pela BOVESPA, que é o órgão responsável pelo desenvolvimento do ISE. Posteriormente, o Conselho passou a contar também com o PNUMA em sua composição. A Bolsa é responsável pelo cálculo e pela gestão técnica do índice. O ISE tem por objetivo refletir o retorno de uma carteira composta por ações de empresas com reconhecido comprometimento com a responsabilidade social e a sustentabilidade empresarial, e também atuar como promotor das boas práticas no meio empresarial brasileiro. Metodologia Completa do ISE





Veja Também


- Boletim Informativo do ISE

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

O que fazer com as Sacolas de Supermercado???

Sabe aquelas sacolinhas de supermercado que vão juntando, juntando, juntando??? Algumas a gente aproveita pra por o lixinho da cozinha, mas e as outras? Produzem mais lixo, e um lixo que degrada muito a natureza!

Eis uma solução prática, fácil e super fashion de aproveitar essas sacolas poluentes: Viram lindas bolsas com um método criativo e rápido: