quarta-feira, 26 de março de 2008

Os Frutos de uma Reforma Agrária

Esse texto é meu, e foi feito especialmente para minha nova coluna no site www.empresasresponsaveis.com.br

Espero que gostem!

Imagine país de estrutura semi-feudal, cuja economia dependia da produção açucareira de grandes empresas americanas, tendo seu comércio boicotado e o acesso à tecnologia ainda hoje muito debilitado pelo embargo dos EUA?

Cuba é dividida em 14 províncias as quais possuem grandes áreas rurais estatizadas graças à reforma agrária iniciada em 1959, após a revolução. Dentro dessas áreas rurais, existem muitas famílias que durante décadas dependem do solo para sua sobrevivência.
A falta de informação e tecnologia fez com que o solo se desgastasse, o que tem sido forte agravante para a economia familiar rural.

A partir do ano de 2000, incentivado por um grupo científico multidisciplinar do Instituto Nacional de Ciências Agrícolas (INCA), surge o Programa de Inovação Agropecuária Local (PIAL).

Hoje presente em nove das 14 províncias Cubanas, vem incentivando o desenvolvimento de técnicas agrícolas, a fabricação artesanal de compotas e condimentos, o plantio de hortaliças para subsistência e comércio local, bem como o cultivo de grãos trazendo independência dos insumos estatais para a criação de gado suíno na região de San Andrés (125 km oeste da capital Havana).

O programa se articula em cinco eixos de trabalho: Captação e comunicação, pesquisa, produção animal, diversificação de sementes e manejo agrícola integrado.

Além de estarem atentos às capacidades e peculiaridades de cada região, o PIAL ainda vem incentivando a independência financeira de mulheres camponesas, que hoje podem sozinhas cultivar suas hortaliças além de conseguirem uma renda extra com a fabricação de conservas de frutas como manga, frutas cítricas e o tomate. Os alimentos são orgânicos, livres de conservantes e agrotóxicos.

O incentivo vem diminuindo o machismo nas regiões rurais de Cuba, melhorando a economia das famílias e ainda está devolvendo a auto-estima dessas mulheres, que hoje sonham com o nascimento de uma pequena agroindústria, a qual ofereceria emprego a jovens e mulheres.

Cuba que um dia praticou basicamente a agricultura extensiva, dominada por grandes empresas americanas que detinham o monopólio do cultivo de cana-de-açúcar em quase todo o território, hoje quase 50 anos após a reforma agrária no país e, começa a andar numa direção economicamente e ecologicamente correta.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Batucada Social

A música brasileira é um dos bens de mercado mais competitivos do mundo, com impacto sócio-econômico só comparado ao futebol. Apesar disto, seu potencial como agente social não é aproveitado integralmente, ao contrário do esporte, cuja importância para o resgate da cidadania é mundialmente reconhecida. Mesmo associados a interesses políticos diversos, tanto a música quanto o esporte têm o jovem como público alvo. Isto faz com que todos os projetos idealizados para atender este público tenham vocação educativa, interativa e transformadora, capaz de reunir o maior número de pessoas, valorizando suas diferenças.

Cultura inserida no inconsciente coletivo; diversa em ritmos e gêneros, a música é incomparável como agente educacional. Aqui se destaca a percussão por seu caráter extrovertido, popular, mobilizador, exatamente porque traduz a maneira como nós, brasileiros, nos relacionamos: tátil, vigorosa e envolvente.

Atento a este poder da música, o Instituto Bandeira Branca (IBB), organização que desde 2003 promove o desenvolvimento e a sustentabilidade em comunidades de baixa renda, com estratégias de economia solidária e técnicas de marketing social, viabiliza um dos seus principais projetos: o Batucadas Brasileiras – Orquestra de Percussão Robertinho Silva.

Com patrocínio da Petrobras e apoio institucional das secretarias de Estado e Municipal de Educação, apoio da Unesco e da Prefeitura do Rio de Janeiro, o projeto visa a capacitação de jovens, por meio de oficinas de percussão, com metodologia desenvolvida por pedagogos e cientistas sociais. “O projeto faz da educação musical um agente de superação do risco a que estão submetidos os jovens das áreas atendidas: as comunidades de baixa renda do Morro da Providência, região portuária do Rio de Janeiro e adjacências”, explica o jornalista Maurício Nolasco, presidente do IBB e coordenador-geral do Batucadas.

Metodologia

Os jovens têm no projeto Batucadas Brasileiras – Orquestra de Percussão Robertinho Silva a oportunidade de adquirir novas fontes de renda através da manufatura, venda e utilização profissional de instrumentos de percussão, além do resgate de sua auto-estima possibilitado pela conscientização acerca da função social da cultura popular.

Conforme explica o diretor-artístico do projeto, Robertinho Silva: “Há uma total afinidade entre o ambiente e os alunos. Uma caixa de fósforos, uma frigideira, tudo é instrumento, e esses meninos são todos músicos. Mas falta informação sobre o valor dos objetos. Mostramos com quantas sementes se faz um chocalho e que não se coloca copo em cima de pandeiro”.

As oficinas irão capacitar o aluno como ritmista, percussionista ou artesão. Para ingressar o candidato deve ser aprovado num teste de habilidade, indispensável ao aprendizado. São quatro módulos didáticos ao longo de 12 meses: primeiro há atividades em grupo, onde o aluno usa o próprio corpo de maneira percussiva. Dança, bate palmas etc. – a idéia é que a atividade também estimule o entrosamento da turma.

Em seguida é desenvolvido o aprendizado rítmico: células regulares, andamento e acentuação. Num terceiro momento se dá a apresentação dos instrumentos, com o ensino da história de cada um e explicações detalhadas sobre sua utilização. Finalmente, a técnica é aplicada em conjunto, já com vistas à orquestração. As aulas ocorrem de segunda a sábado e duram quatro horas por dia, em dois turnos.

O projeto conta com aulas e palestras que apresentam uma visão panorâmica dos distintos estilos musicais e localizam a percussão como uma manifestação inclusive de resistência. “O ensino da música sempre ocupou um espaço não-disciplinar, em oposição às áreas que deteriam o conhecimento; a matemática, por exemplo, forma, enquanto a música, notadamente a percussão, apenas entretém” - explica a orientadora pedagógica do projeto, Claudia Miranda.
No conteúdo programático do módulo “Formação Cidadã” há disciplinas como “História social da percussão” e “Heranças rítmicas”. As batucadas, na verdade, só fazem acender nos jovens o pavio da conscientização, conforme explica o supervisor do projeto, Carlos Negreiros: “Alguém já viu um membro de Escola de Samba carregando seu instrumento sem orgulho? Mas até que o país chegasse a tal riqueza, tivemos a participação da ancestralidade africana que trouxe, além da musicalidade, técnicas de extração de ouro, agricultura, vimaria, cerâmica, a forja de objetos de ferro, a ginga... Saber-se parte desse processo – e também do presente da cidade – dará ao aluno respeito e reconhecimento em sua comunidade”.

Texto retirado do site www.batucadasbrasileiras.org.br