quinta-feira, 13 de março de 2008

Batucada Social

A música brasileira é um dos bens de mercado mais competitivos do mundo, com impacto sócio-econômico só comparado ao futebol. Apesar disto, seu potencial como agente social não é aproveitado integralmente, ao contrário do esporte, cuja importância para o resgate da cidadania é mundialmente reconhecida. Mesmo associados a interesses políticos diversos, tanto a música quanto o esporte têm o jovem como público alvo. Isto faz com que todos os projetos idealizados para atender este público tenham vocação educativa, interativa e transformadora, capaz de reunir o maior número de pessoas, valorizando suas diferenças.

Cultura inserida no inconsciente coletivo; diversa em ritmos e gêneros, a música é incomparável como agente educacional. Aqui se destaca a percussão por seu caráter extrovertido, popular, mobilizador, exatamente porque traduz a maneira como nós, brasileiros, nos relacionamos: tátil, vigorosa e envolvente.

Atento a este poder da música, o Instituto Bandeira Branca (IBB), organização que desde 2003 promove o desenvolvimento e a sustentabilidade em comunidades de baixa renda, com estratégias de economia solidária e técnicas de marketing social, viabiliza um dos seus principais projetos: o Batucadas Brasileiras – Orquestra de Percussão Robertinho Silva.

Com patrocínio da Petrobras e apoio institucional das secretarias de Estado e Municipal de Educação, apoio da Unesco e da Prefeitura do Rio de Janeiro, o projeto visa a capacitação de jovens, por meio de oficinas de percussão, com metodologia desenvolvida por pedagogos e cientistas sociais. “O projeto faz da educação musical um agente de superação do risco a que estão submetidos os jovens das áreas atendidas: as comunidades de baixa renda do Morro da Providência, região portuária do Rio de Janeiro e adjacências”, explica o jornalista Maurício Nolasco, presidente do IBB e coordenador-geral do Batucadas.

Metodologia

Os jovens têm no projeto Batucadas Brasileiras – Orquestra de Percussão Robertinho Silva a oportunidade de adquirir novas fontes de renda através da manufatura, venda e utilização profissional de instrumentos de percussão, além do resgate de sua auto-estima possibilitado pela conscientização acerca da função social da cultura popular.

Conforme explica o diretor-artístico do projeto, Robertinho Silva: “Há uma total afinidade entre o ambiente e os alunos. Uma caixa de fósforos, uma frigideira, tudo é instrumento, e esses meninos são todos músicos. Mas falta informação sobre o valor dos objetos. Mostramos com quantas sementes se faz um chocalho e que não se coloca copo em cima de pandeiro”.

As oficinas irão capacitar o aluno como ritmista, percussionista ou artesão. Para ingressar o candidato deve ser aprovado num teste de habilidade, indispensável ao aprendizado. São quatro módulos didáticos ao longo de 12 meses: primeiro há atividades em grupo, onde o aluno usa o próprio corpo de maneira percussiva. Dança, bate palmas etc. – a idéia é que a atividade também estimule o entrosamento da turma.

Em seguida é desenvolvido o aprendizado rítmico: células regulares, andamento e acentuação. Num terceiro momento se dá a apresentação dos instrumentos, com o ensino da história de cada um e explicações detalhadas sobre sua utilização. Finalmente, a técnica é aplicada em conjunto, já com vistas à orquestração. As aulas ocorrem de segunda a sábado e duram quatro horas por dia, em dois turnos.

O projeto conta com aulas e palestras que apresentam uma visão panorâmica dos distintos estilos musicais e localizam a percussão como uma manifestação inclusive de resistência. “O ensino da música sempre ocupou um espaço não-disciplinar, em oposição às áreas que deteriam o conhecimento; a matemática, por exemplo, forma, enquanto a música, notadamente a percussão, apenas entretém” - explica a orientadora pedagógica do projeto, Claudia Miranda.
No conteúdo programático do módulo “Formação Cidadã” há disciplinas como “História social da percussão” e “Heranças rítmicas”. As batucadas, na verdade, só fazem acender nos jovens o pavio da conscientização, conforme explica o supervisor do projeto, Carlos Negreiros: “Alguém já viu um membro de Escola de Samba carregando seu instrumento sem orgulho? Mas até que o país chegasse a tal riqueza, tivemos a participação da ancestralidade africana que trouxe, além da musicalidade, técnicas de extração de ouro, agricultura, vimaria, cerâmica, a forja de objetos de ferro, a ginga... Saber-se parte desse processo – e também do presente da cidade – dará ao aluno respeito e reconhecimento em sua comunidade”.

Texto retirado do site www.batucadasbrasileiras.org.br

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