quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Tropa de Elite?


O texto a seguir foi produzido por integrantes do Observatório de Favelas após debaterem o filme 'Tropa de Elite'.


Tropa de Elite?


O filme “Tropa de Elite”, desde a distribuição e a comercialização de cópias piratas até o seu lançamento oficial, suscita debates e polêmicas sobre a atuação do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, o Bope, e sobre as políticas de segurança pública para o combate ao crime, em especial, ao tráfico de drogas e de armas nas favelas e espaços populares da cidade.

Este artigo pretende avaliar o modo como o filme apresenta e relaciona diversas situações, espaços e personagens, que são representações do mundo real da segurança pública no Rio de
Janeiro.

No ponto de vista e nas opiniões do personagem Capitão Nascimento, construído pelo diretor com base em entrevistas com policiais e oficiais do Bope, percebemos elementos de uma mentalidade largamente difundida nesse grupamento e na sociedade de modo geral.
Uma primeira análise diz respeito à forma como Nascimento e seus colegas demonizam o usuário de drogas, apontado como financiador e culpado pelo tráfico e pelos crimes vinculados ao tráfico.

Assusta saber que essa visão superficial e maniqueísta do problema está em sintonia com a de policiais e autoridades de segurança e tem a simpatia de parte do público que assiste ao filme. O próprio governador do Rio já se declarou a favor da revisão da lei sobre o consumo de drogas, enquanto especialistas de todo o mundo apontam a perversidade do enfoque policial e defendem que o tema seja tratado como de saúde pública.

Não menos superficial é a caricatura lamentável das ONGs e movimentos sociais retratada no filme. Eles aparecem como um grupo de estudantes e voluntários deslumbrados, que distribuem camisinhas, dentre outras ações de caráter educativo e assistencial, ao mesmo tempo que servem de cabo eleitoral de candidatos eleitorais e se aproveitam de sua proximidade com o tráfico para eles mesmos revenderem a droga para os pares universitários da classe média.

Hoje, muito pelo contrário, a sociedade civil se constitui como um dos poucos canais de diálogo e articulação entre poder público, iniciativa privada, organismos de cooperação internacional e as diversas associações comunitárias. A grande maioria das ONGs e movimentos sociais são atores chaves para proposição, implementação e avaliação de projetos e políticas públicas nos espaços populares, contribuindo para o cumprimento de princípios constitucionais democráticos.

Capitão Nascimento, seus colegas fictícios do filme e também os da vida real agem e pensam dessa forma muito por causa do processo de treinamento ao qual foram submetidos para se tornar “caveiras”. Formação esta centrada na exacerbação da cultura militar e na celebração da morte, cantada nos exercícios e reafirmada nas cruzes fincadas a cada abandono dos aspirantes, chamados de fracos ao desistirem de se tornar assassinos frios, cruéis e impiedosos nas incursões policiais.

Esse treinamento resulta numa visão simplista e beligerante da sociedade, calcada numa gama de preconceitos sobre estudantes, universidades e, principalmente, favelas. Os moradores dessas comunidades não têm voz nem espaço, são afrontados, têm suas crianças sob a mira de pistolas e fuzis, suas casas invadidas. Enfim, são cidadãos que têm seus direitos desrespeitados.
Cidadania esta que deveria ser protegida pelos policiais e é desconsiderada pelos mesmos.

Diante disso, o mais chocante de toda essa polêmica gerada pelo filme é a aceitação manifestada pelos espectadores diante do uso de métodos de tortura, humilhação, constrangimento de moradores, truculência e propagação da morte entre as casas, ruas e becos nos diversos espaços populares da cidade.

Essa aprovação pública evidencia como estamos mal no Rio de Janeiro. Mal de polícia, mal de segurança pública e, o que é pior, de tão mal, já distorcemos o entendimento do que pode ou não ser considerada uma tropa de elite.
Texto Retirado do site da ONG Observatório de Favelas do Rio de Janeiro
Foto por Ratão Diniz também retirada do Site

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